sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O COMPLEXO DA AMAZÔNIA - Djalma Batista, fichado e comentado.

O COMPLEXO DA AMAZÔNIA - Djalma Batista
Atualizado, fichado e comentado

Josenildo Santos de Souza. 
                                                                                                   Dados citação: SOUZA, J. S.

Breve análise da realidade atual

Após mais de 36 anos de sua publicação, a obra – o Complexo da Amazônia, de Djalma Batista,  pouco ou quase nada mudou na região. As cidades do interior da Amazônia, especificamente, do Amazonas, salvo as cidades polo, continuam entregues ao abandono: falta de infraestruturas, ausência dos poderes públicos, a economia reduzida ao extrativismo e a agricultura de subsistência. As populações trabalhadoras ao abandono das leis trabalhistas pela ausência das intuições fiscalizadoras.

A tão decantada Zona Franca de Manaus, cujo “modelo visava atender a um importante e imperativo geopolítico básico, isto é, ocupar o território da região e, em especial, aquelas áreas de fronteira e promover o aproveitamento econômico e capitalista da região” (Pontes Filho, 2000, p. 192) que em sua primeira versão (1957) operava como área de livre comercio. Em 1967 passou a configuração atual de Zona de Processamento Industrial, em Manaus não estendeu os benefícios as populações do interior do Estado. .

As cidades desprovidas de ruas asfaltadas. O asfaltamento é paliativo. No período de verão colocam borra de asfalta para criar uma visualidade estética. No período das chuvas torrenciais a estética é das ruas esburacadas, enlameadas ou cheias de areias.

Nos hospitais públicos o atendimento é precário. Faltam médicos, medicamentos. Exames especializados não são oferecidos e a população quando não tem um bom transito com o mandatário político sofre com o deslocamento e a realização dos exames na capital Manaus.

Na questão educacional, ainda que as instituições de ensino superior (UEA e UFAM) estejam presentes nas cidades do interior, não é possível perceber melhoria na qualidade de vida das populações, muito embora seja uma das soluções apontadas por Batista.


No artigo DJALMA BATISTA artigos de jornal - Renan Freitas Pinto (Edua, 2007), propõe  que para compreender e analisar as obra de Djalma Batista, os artigos de jornais que escreveu semanalmente, sobre temas variados, sempre abordando a Amazônia, no Jornal do Comércio, entre os anos de 1977 a 1978 e sua relação com as obras O Complexo da Amazônia: análise do processo de desenvolvimento e Amazônia: Cultura e Sociedade, são extremamente esclarecedores.


O Complexo da Amazônia – Djalma Batista.

O livro escrito por Djalma Batista, dividido em três capítulos, procura analisar, descrever e interpretar a Complexidade da Amazônia, sua necessidade em compreende-la e refletir sua complexidade em diversas as abordagens disciplinar, interdisciplinar, transdisciplinar e multidisciplinar, sua pluralidade sociocultural, ambiental, ecológica, territorial, econômica, política e institucional. Traços marcantes que aferram o subdesenvolvimento, atraso regional, desigualdades sociais, para então propor caminhos para o seu desenvolvimento autosustentado, tendo como base o aspecto socioambiental, ecológico e econômico da região, amparados no desenvolvimento educacional em instituições de pesquisas, formação de recursos humanos em nível de pós-graduação, na concentração de esforços a influir na melhoria da qualidade de vida da população, com o aproveitamento dos recursos naturais em bases econômicas, visando especialmente, a defesa da Amazônia, sua diversidade sociocultural e biodiversidade para a economia regional sustentável e para o futuro da humanidade. 

Batista, percebe o Brasil a partir da Amazônia, trazendo contribuições que "vão da história da medicina, das instituições de pesquisa, dos processos econômicos e da vida cultural e social que transcorre no espaço das cidades maiores e no interior, com suas pequenas cidades e aglomerações humanas espalhadas nessa extensa e variada geografia, sob um enfoque destinado a esclarecer, no contexto brasileiro, as origens e as manifestações do subdesenvolvimento regional", escreve Renan Freitas Pinto, 2007, p. 163. 

Parte da tese, segundo a qual para compreender a complexidade sociocultural da Amazônia, é necessário trabalhar de modo constante e sistemático a relação região - nação e a relação região - subdesenvolvimento, com a necessidade de compreendê-la como dimensão do Brasil. Em suas analises, busca explicações para a falta de perspectivas de sua população, ao atraso relativo que apresenta em relação ao desenvolvimento nacional, cimentada em uma percepção crítica de temas e questões vivenciadas na realidade.

O autor, partindo de diferentes abordagens para compreender o Complexo da Amazônia,  faz uso de categorias de analises de diferentes campos de investigação como a história, a economia, a geografia, a demografia, a ecologia, a sociologia, a antropologia, a literatura, para conectar ideias e mostrar a região com imensas desigualdades sociais e subdesenvolvimento, é o principal objeto de investigação, observação e descrição das experiências cotidianas e de prática profissional de Djalma Batista na região, como profissional da medicina e em ações de saúde pública.

Djalma Batista, adverte que o livro não tem a intensão de ser cientifico, terá um aspecto polêmico, pela maneira de interpretar os fatos discutidos. É um livro escrito e pensado no Amazonas, talvez resultado de subdesenvolvimento cultural reinante. 

Para Djalma Batista, a Amazônia é um território excelente para o desenvolvimento de pesquisa cientifica. Mas também adverte para a necessidade de uma política que discipline a pesquisa na região e o respeito às populações tradicionais. De todos os seres atingidos pelo desequilíbrio ecológico resultante das políticas desenvolvimentistas, os animais têm estado em primeiro lugar, para atender à alimentação do povo e a demanda de couros e peles, principalmente, surgida nos grandes mercados mundiais” (p. 37).

Em relação ao uso da mão de obra, mostra que as leis trabalhistas não atingiram as populações da área amazônica. Veja: “O trabalho passou a ser valorizado, mas a vigência das leis de proteção não atingiu bem a área amazônica, fora das capitais” (p.37).

O objetivo do livro O complexo da Amazônia “é alertar contra o grande mal, que está à vista: a destruição desavisada do último reduto da natureza na face da Terra, transformando-o em outra área-problema para o Brasil, tal como o Nordeste, de terras semidesérticas. Não esquecer que a Amazônia está situada em cima da linha do Equador, com uma alta pluviosidade. Sua defesa e sua riqueza residem precisamente na água e na floresta”. (p. 37).

Mostra e analisa o declínio da Amazônia revelando o descompasso entre a terra e o homem e as desigualdades acentuadas do desenvolvimento brasileiro. Há o Brasil-amazônico subdesenvolvido e o Brasil-centro-sul adiantado. Analisa as razoes porque tudo isso vem acontecendo. Djalma Batista percebe que a economia Amazônica estava estruturada no ciclo da borracha que com o declínio na I Grande Guerra, quebrou os padrões econômicos resultado de uma economia centrada em torno de um único produto: a borracha. “Na verdade, em todo o vale amazônico ficou o mesmo travo amargo de desesperança e amargura, uma vez que a borracha tem sido um marco em nossa história e em nossa psicologia, em torno do qual temos vivido uma verdadeira neurose obsessiva” (p.´ 34).

Prossegue dizendo da inquietação do povo com a falta de oportunidades e de desenvolvimento da região “a inquietação e o desespero amazônicos prosseguiram depois da Revolução de 1930, que assinalou historicamente, o início do processo de desenvolvimento brasileiro, com a industrialização. O trabalho passou a ser valorizado, mas a vigência das leis de proteção não atingiu bem a área amazônica, fora das capitais. Durante a década de 30, vivemos no mesmo abandono, no mesmo atraso e na mesma falta de perspectiva” (p. 35).

O desenvolvimento da Amazônia ganhou corpo a partir do governo de Castelo Branco. Diversas iniciativas abriram um novo horizonte para a população. Djalma ressalta a tese de Agnelo Uchôa Bittencourt, dizendo que o desenvolvimento da Amazônia não é apenas um problema regional ou local, mas um problema do povo brasileiro. (p. 35).

 Concorda com as iniciativas dos empreendimentos para a região, entretanto alerta para as ameaças futuras fazendo as seguintes observações (p.36): 

1 – A natureza amazônica não está suficientemente conhecida e estudada. Considera como prioridade a necessidade de incentivar a pesquisa cientifica e tecnológica para servir de orientação;

2 – Defende o uso equilibrado dos recursos naturais como forma de prevenir o desequilíbrio ecológico da região contra as práticas destrutivas, como o desmatamento desordenado, agricultura itinerante, esgotamento dos recursos da pesca que acentuarão o desequilíbrio entre a água, a flora, a fauna, o ar e o próprio homem;

3 - Criação urgente de uma Agrotécnica para aproveitamento racional das terras amazônicas e a produção de alimentos.

Capitulo I –  Da Pan-Amazônia
 O Espaço e a Humanidade
A Amazônia constitui um domínio ecológico, caracterizado e associado ao “potencial de espaço” e o “vazio demográfico”. Para o autor, Gastão Cruls, sintetizou a ideia de Pan-Amazônia, ao dizer que “ao Brasil caiba a maior extensão desse imenso vale quase ininterruptamente revestido de espessa floresta, nele também se incluem boas faixas territoriais de várias repúblicas hispano-americanas e as três possessões europeias situadas na Guiana”. (BATISTA, 2007, p. 41).

Para Batista (2007, p. 41), o silvícola, tal como para a planta ou para o pássaro, não há fronteiras políticas, entre o Brasil, Colômbia, Peru, República da Guiana, na Bolívia ou na Guiana Francesa, em qualquer desses pontos, “é o ameríndio quem dita os estilos de vida”. (BATISTA, 2007, p. 41). 

A Amazônia constitui-se de uma potência de espaço e um vazio demográfico. São as etnias indígenas que ditam os estilos de vida na região e a continuidade antropogeográfica do mundo amazônico. Os Tiriós que vivem nos dois lados do Tumucumaque. Ianomâmis que circulam livremente entre Brasil e Venezuela. Tucanos entre Brasil e Colômbia e nos Ticunas que dominam o Alto Solimões, tanto em território brasileiro, como peruano e colombiano. O espaço é imenso e a humanidade que nele vive é exígua. (BATISTA, 2007, p. 41-42).

Na compreensão e analise da Panamazônia, Batista (2007) sugere o exame em uma visão “multinacional da área” considerando a Grande Amazônia ou Amazônia Continental, de acordo com Armando Mendes, quando analisou o imenso e urgente problema de aproximação entre as diferentes populações Panamazônia. (BATISTA, 2007).

As Diversidades da Região
Culturalmente, as Amazônias diferem muito, especialmente na linguagem. Cada Amazônia tem as suas características próprias apesar da aparente homogeneidade geográfica, é pouco habitada e possui diversidade étnica e cultural, embora a economia não divirja muito. A economia na Amazônia Continental tem um ponto comum: o extrativismo vegetal ou mineral predominante, em que cada região toma o seu aspecto próprio. Zonas agrícolas na Bragantina e costa da Guiana e Suriname. Pastoril na ilha do Marajó, nordeste do Mato Grosso e nos campos de Roraima. Entretanto a condição de vida de cada segmento da Amazônia é contrastante e resulta do nível social e das condições históricas da respectiva população. (BATISTA, 2007, p. 43).

Conceito de Panamazônia
Panamazônia é um conceito geográfico. Geograficamente, é uma extensa planície, situada acima e abaixo da linha do Equador, situação de que decorrem condições especiais de geologia e climatologia. (p.33). A Amazônia Brasileira foi definida pelo geógrafo Eidorfe Moreira (1958) fixando conceitos hidrográficos, zoogeográfico, fitogeográfico, econômico e politico, dos quais só o último não é aplicável à Grande Amazônia. (p. 33). Em princípio, por Amazônia se entenderiam, todas as terras compreendidas na bacia amazônica. Armando Mendes apud Batista (p. 34) devemos “encarar a Amazônia no seu conjunto, ou seja, como um todo continental. Igual conceito já tinha sido exposto por Samuel Benchimol (1966) e posteriormente adotado por Milcíades Braga (1973)”. (Batista, 2007, 44).

A Panamazônia e o Brasil.
O Brasil em face da Amazônia tem uma responsabilidade muito grande. Ë o detentor da maior parte do rio principal e especialmente de sua desembocadura. Sugestões que merecem destaque: 

1 – aproximar, da melhor maneira possível, os povos amazônicos;

2 – criar uma política de fronteira que supere o problema da transferência de produtos brasileiros para os países vizinhos e vice-versa quebrando o mecanismo de contrabando que vigora intensamente;

3 – estudar questões em comum especialmente de medicina e ecologia para que se estabeleçam normas preservadoras da natureza de toda a Pan-Amazônia, e evitando que se repitam os erros anteriores.

4 – estabelecer nos diversos países mercado livre para os produtos próprios das várias Amazônias; 

5 – apoio à navegação fluvial e aérea;

6 – Atrair estudantes dos países vizinhos para as Universidades do Pará, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso e Acre, e mandando a Iquitos estudantes brasileiros a Universidade local;

7 – Incentivar uma política de cooperação que conduza à formação de uma consciência amazônica. (BATISTA, 2007, p. 50-51).

Dos Índios e dos Brancos
O Choque das Culturas
Djalma Batista diz que em se tratando de Amazônia tanto é possível que se possa errar afirmando como negando quanto às questões estatísticas da população indígena da Amazônia. Quem mais sofreu com o choque cultural trazido pelos colonizadores foram os indígenas da região. Os resultados foram sumamente graves “houve mudança dos métodos de trabalho e dos hábitos alimentares; a imposição de novas crenças, embora o absurdo de pretender que o primitivo pulasse, de um salto, do politeísmo ao monoteísmo; o propósito de subordiná-lo, pela escravidão declarada ou disfarçada aos conquistadores, além de modificações profundas na estrutura familiar”. (BATISTA, 2007, p. 55).

Tais qualidades negativas trouxeram a deformação inter étnica e a degradação das populações nocivas ao homem da Amazônia. Mas apesar de tudo isso “o espírito do índio permanece e sobrevive, nas suas grandes dimensões culturais o que com constitui a maior lição da luta racial secular” (BATISTA, 2007, p. 56) da herança do indígena do Brasil. 

Traço Psicológico da Mestiçagem Cabocla
Mas conforme Batista restou na Amazônia mostras de herança ameríndia no comportamento do povo. Uma delas, das mais típicas, é “uma dose visível de preguiça reinante entre os habitantes do vale, uma indisposição para o trabalho sistemático, um conformismo com o resultado dos modestos esforços realizados e uma permanente despreocupação com o dia de amanhã. [...] Outra herança são os hábitos do banho de imersão frequente; as preferenciais alimentares pelo peixe, pela farinha de mandioca, pelo tacacá e pelo açaí; as vestimentas de cores berrantes tão ao gosto das mulheres, que ainda se enfeitam de muitos adereços, com o que estão dia com a moda atual; a fé evidente em tratamentos por meio de injunções, que traduzem o gosto pelas novidades, e da aplicação das mesmas injunções na veia, pela crença de que atuam diretamente no meio interno°. (BATISTA, 2007, p. 63).

Dos Alimentos Indígenas Naturais
Na Amazônia, a base alimentar é constituída de bens naturais ou resultante de culturas agrícolas. Os bens naturais eram fartos, representados por animais e vegetais.  No Reino animal, assinalam-se: peixes, caças, e aves; algumas formigas, larvas de alguns insetos que parasitam amêndoas de palmeiras como o babaçu, ricas em gorduras; mel produzido por numerosas abelhas. No reino vegetal, destacam-se os variados frutos silvestres e o palmito das palmeiras. Existem ainda algumas ervas, condimentos e diversas pimentas.  (BATISTAS, 2007, P. 69).

Plantas Cultivadas
As culturas eram feitas segundo o sistema tradicional da agricultura itinerante, em consequência da conhecida mobilidade das tribos, em razão da guerra ou talvez pelo próprio instinto nômade.

O Solo a Serviço da Alimentação do Índio
Da utilização da terra, tem-se vestígios da chamada terra preta de índio. Tudo leva a crer que seja de natureza antropogênica. “São solos de natureza fértil e com horizonte eluvial de coloração negra, devido ao elevado teor de matéria orgânica. Além dessa característica química, apresenta elevados teores de fósforo assimilável, cálcio e magnésio trocáveis”. A terra preta é encontrada em solos do Estado do Pará e no Estado do Amazonas, a sudoeste de Manaus, entre os Rios Negro e Solimões; rodovia AM-10; e Colônia Agrícola Cacau Pirêra. (BATISTA, 2007, 71). 

A Mandioca absorveu a agricultura
Na Amazônia, desde antes da colonização europeia, a mandioca é, fator preponderante e básico da alimentação, representando uma supremacia indiscutível sobre todas as demais culturas de subsistência. (p.56). A cultura tem vantagens insofismáveis (rusticidade, facilidade de cultivo e multiplicidade de formas de aproveitamento), em contraposição a desvantagens clamorosas (pobreza na composição, constituída fundamentalmente de carboidratos; a cultura ao alcance do colono pobre e inculto, que visa à própria subsistência, tornando-se fator evidente de degradação do solo). (BATISTA, 2007, p. 73).
Além da rusticidade a facilidade de cultivo, a mandioca é transformada através de processos arcaicos, mas que se integram na cultura da população. Para substitui-la, é preciso que surjam atividades seguramente rentáveis e produtos que satisfaçam as exigências do paladar e a força da tradição. (BATISTA, 2007, 74).

Alimentação e Ecologia
Os primeiros povoadores encontraram a Amazônia semivirgem e puderam assim ter atendias, com relativa fartura e facilidade, as suas necessidades biológicas em proteínas, gorduras, hidratos de carbono, sais minerais e vitaminas. (BATISTA, 2007, 75).

Entretanto, essa fartura, registrada sistematicamente pelos naturalistas visitantes, até o século XVIII, vem se reduzindo aos poucos, importantes fontes alimentares, como os peixes-boi, tartarugas, quelônios em geral chegaram à faixa de alarme, bem como o pirarucu. Mas registra-se que peixes, caça e frutos silvestres, têm épocas sazonais e dependem de fatores ecológicos especiais. (BATISTA, 2007, 75-76).

Do Homem Perante a Geografia
A Primeira Amazônia
Os critérios definidos por Djalma Batista para classificar a Amazônia, tem como ponto de partida a geografia humana, considerando a localização de seus habitantes”. (BATISTA, 2007, p. 111). Desse ponto de vista classifica a Amazônia em três:

a) A primeira Amazônia – Amazônia Brasileira das metrópoles, Belém e Manaus, cidades representativas, cada qual com suas características próprias, “e por isso constituem o que chamo de “Primeira Amazônia”, para a qual convergem navios, aviões, visitantes e imigrantes, além das rendas e da produção de extensas áreas”. (BATISTA, 2007, p. 111). Ambas mantém vínculos históricos, políticos e, sobretudo sociais com a Amazônia, porém econômica e culturalmente estão desligadas da planície.  O rio Amazonas exerce o papel de trampolim, entre as cidades do interior e das metrópoles, que exercem o polo de atração da economia nas duas principais capitais amazônicas. Na Amazônia Continental, só vejo, Iquitos, para situar na “Primeira Amazônia”, uma vez que centraliza a vida econômico-social do Peru pré-andino. (p.112)

A Segunda Amazônia
A outra Amazônia é a das cidades do interior, tanto as que se encontram em fase de desenvolvimento ou são sedes municipais, muitas delas apenas com o rótulo de cidades, como por exemplo, Gurupá, com os traços característicos de uma sede municipal, com o título de cidade, pois carecem de funções administrativas, religiosas, infraestrutura básica, escolas, universidades, ginásios esportivos, aeroporto para pouso de avião, serviços permanente de energia elétrica, unidades sanitárias ( hospitais, postos de saúde), água encanada em todos os domicílios, ou pelo menos torneiras públicas, estação telefônica intermunicipal, agencias de correios, bancárias, portos fluviais. 

Ao Estudar o sítio e a posição destes núcleos, verifica-se que nele não se encontram as atividades de relação que caracterizam as cidades. “É, entretanto comum na Amazônia encontramos tais tipo de aglomerados, cuja população se dedica, em sua grande maioria, ao extrativismo e mesmo a agricultura, ficarem ligados a centros maiores. (BATISTA, 2007, 113). O povo em geral não tem condições econômicas para custear o fornecimento de água, luz e telefone, nem viajar de avião. 

A falta desses serviços ou a sua precarização, como no caso, unidades de saúdes sem profissionais médicos especializados, ou em número suficiente para o atendimento da população, assistentes sociais, psicólogos, fisioterapeutas. Ou seja, assistência médica muito restrita, a educação deixa muito a desejar, mercado municipal e feira de produtos alimentares, precárias e em péssimo funcionamento, por isso a população envida esforços para migrar para as capitais. Mas um passo importante foi dado em algumas cidades do interior, foi a “criação de campi universitários, a partir do Projeto Rondon, com cursos intensivos de licenciatura, do nível superior, em municípios de Tefé, Parintins, Benjamin Constant Humaitá, no Estado do Amazonas”. (BATISTA, 2007, p, 113).

Segundo Djalma Batista a situação das populações das cidades se acham quase todas disseminadas a margem dos rios, é de verdadeira estagnação.  Djalma Batista aponta como solução para melhorar tal situação a criação de infraestrutura para melhorar a vida e o desenvolvimento das populações.  Portanto, a Segunda Amazônia – seriam as cidades mais desenvolvidas e com maior contato com a capital.

A Terceira Amazônia
A Terceira Amazônia – classifico assim a grande área onde vivem os extrativistas, agricultores, agricultores, pescadores e garimpeiros, isto é, os trabalhadores rurais em geral e suas numerosas famílias (moradores das vilas, povoados, aldeias, freguesias, sítios, fazendas, seringais, castanhais), que constituem, ainda, a grande maioria da Amazônia. Seus líderes são os donos das terras e dos negócios, e sua voz, ouvida nas reivindicações da região, não representam o povo e sim os interesses de uma classe dominante. (Batista, 2007, p. 114-115).

É certas que essas figuras humanas que sobressaem na Amazônia rural são, as mais das vezes, senhores de grande inteligência e sagacidade, com poder de domínio sobre os seus subordinados e os pioneiros tiveram papel proeminente na epopeia da conquista e do desbravamento. A diferença entre eles e os rurícolas, em geral, residia sempre nisso: os proprietários puderam sair e mandar os filhos para as escolas nas capitais, e estes raramente voltaram ao interior. Passaram, portanto, para a Primeira Amazônia. (Batista, 2007, p. 115).

Restou no Interior uma massa imensa, em completa desagregação social, vivendo em condições sub-humana, embrutecida e aviltada: ´pária entre os párias, solitários, obstinado e cego´ (Edison Carneiro), são os habitantes das vilas, povoados, ´freguesias´, aldeias, sítios, fazendas, seringais, castanhais, pontos de comércio e ´colocações´. Essas ´colocações´ são uma criação típica da Amazônia: locais, tanto na terra firme com a beira dos rios, ou nos flutuantes construídos às suas margens (especialmente nas embocaduras, para o estabelecimento de um negócio de pequena monta), onde o homem faz suas habitações rústicas, abrigando mulher e filhos, e tem o seu ponto de apoio para atividades extrativistas. ´Freguesias´ também é outro conceito amazônico, registrado por Eduardo Galvão (1954) representando o ´conjunto de seringueiros ou roceiros que trabalham para o mesmo patrão, cujas barracas ou tapiris ocupam determinada área ou situação. (Batista, 2007, p. 115).

Em geral, a vida continua primitiva, modesta, baseada na agricultura de subsistência, colheita dos produtos naturais, habitações rústicas, que na maioria das vezes, servem de apoio para as atividades extrativistas. As populações da Terceira Amazônia, “os moradores do interior residem a distâncias que ás vezes se contam por horas, de canoa ou motor, para os vizinhos mais próximos. Poucos moram fora das margens dos rios, sendo continuamente na enchente, perseguida pela subida das águas e na vazante tem cortadas, nos altos rios, as, limitadas comunicações” (BATISTA, 2007, p. 115-116), especialmente a falta da água para consumo. 

Segundo Batista (2007, p. 117) uma das soluções de melhoria nas condições de vida da população “está na educação, como uma das soluções apontadas para melhorar o desenvolvimento das populações do interior para elevar o nível cultural e dar-lhes novos horizontes, melhorando as condições de trabalho e novas perspectivas de vida. E ainda, “criar novas condições econômicas, reduzindo o extrativismo a um mínimo suportável pela natureza, sem que está se desgaste do modo avançado a que estamos assistindo” (p.90).

Referência:
BATISTA, Djalma. O Complexo da Amazônia: analise do processo de desenvolvimento. – 2ª ed. Manaus: Editora Valer, Edua e Inpa, 2007.

Peoma Divagações de um corpo

domingo, 1 de janeiro de 2012

Revoluções de 2011 me lembram 1848 - diz Hobsbawm.

Revoluções de 2011 me lembram 1848 - diz Hobsbawm.


O prestigiado historiador britânico Eric Hobsbawm comparou as revoltas no mundo árabe em 2011 às revoluções que explodiram na Europa no fatídico ano de 1848.

Em entrevista à BBC, Hobsbawm ressaltou que desta vez os movimentos de contestação são impulsionados pela classe média, e não pelo proletariado.

"Foi uma grande alegria redescobrir que é possível que as pessoas saiam às ruas para se manifestar e derrubar governos", disse o historiador, que passou toda sua vida ligado às revoluções.



Hobsbawm nasceu poucos meses antes da Revolução Russa, de 1917, e foi comunista a maior parte de sua vida, assim com um influente pensador marxista. Um de seus livros mais conhecidos, a Era das Revoluções, que retrata justamente as revoltas de 1848, é um clássico da historiografia.

Além de escrever sobre as revoluções, Hobsbawm também apoiou algumas revoltas. Com mais de 90 anos, sua longa paixão pela política aparece no título de seu mais novo livro: How to change the World (Como mudar o mundo) e em seu enorme interesse pela Primavera Árabe.

"A verdade é que eu tenho um sentimento de excitação e alívio", disse, ao receber a reportagem em sua casa em Hampstead Heath, bairro no norte de Londres.

Democracias árabes?

Para Hobsbawm, 2011 lembra outro ano de revoluções.

"Me lembra 1848, outra revolução impulsionada de forma autônoma, que começou em um país e depois se estendeu por todo um continente em pouco tempo", diz.

Naquele ano, um levante popular em Paris acabou se alastrando pela área da atual Alemanha e Itália e pelo Império Habsburgo (hoje Áustria).

Para quem ajudou a encher a praça Tahir, no Cairo, derrubando o regime de Hosni Mubarak, em fevereiro, e agora teme pelo destino da revolução egípcia Hobsbawm tem uma palavra de alento.

"Dois anos após 1848, tudo parecia como se houvesse fracassado. Mas no longo prazo não houve fracasso. Conseguiu-se uma boa quantidade de avanços liberais. De modo que foi um fracasso imediato, mas um êxito parcial no médio prazo, ainda que não tenha sido na forma de revolução", diz.

Talvez com exceção da Tunísia, Hobsbawm não vê grandes possibilidades da democracia liberal ou governos representativos ao estilo ocidental triunfarem no mundo árabe.

O historiador ressalta ainda as diferenças entre os vários países varridos pela atual onda revolucionária. "Estamos no meio de uma revolução, mas não de uma única revolução", diz. "O que une (os árabes) é um descontentamento comum e forças de mobilização comuns: uma casse média modernizadora, sobretudo jovem, estudantes e, principalmente, uma tecnologia que permite que hoje seja muito mais fácil mobilizar os protestos", afirma.

Indignados e 'Occupy' A importância das redes sociais também ficou evidente em outro movimento que marcou 2011: os protestos dos indignados e as ocupações que ocorreram na Europa e na América do Norte.

Segundo Hobsbawm, o movimento remonta à campanha eleitora de Barack Obama, em 2008. Na ocasião, o então candidato mobilizou com sucesso uma juventude até então apática à política por meio da internet.

"As ocupações, em sua maioria, não foram protestos de massa, não foram os 99% (da população), mas de estudantes e membros da contracultura. Em momentos, isso encontro eco na opinião pública. É o caso dos protestos contra Wall Street e as ocupações anticapitalistas", afirma.

De todo modo, a velha esquerda, da qual Hobsbawm tomou parte, manteve-se às margens das manifestações.

"A esquerda tradicional estava orientada para um tipo de sociedade que já não existe mais ou está deixando de existir. Acreditava-se sobretudo no movimento operário como o grande responsável pelo futuro. Bem, nos desindustrializamos e isso já não é possível", destaca o historiador.

"As mobilizações de massa mais efetivas hoje são aquelas que começam em meio a uma classe média moderna e em particular em um grupo grande de estudantes. São mais efetivos em países onde, demograficamente, os jovens são mais numerosos", diz.

Compreender o passado Eric Hobsbawm não espera que as revoluções árabes tenham maiores ecos no mundo, ao menos não como uma antessala de uma revolução mais ampla. Será mais provável, assegura, uma dinâmica que compreenda reformas graduais do estilo das que "ocorreram na Coreia do Sul nos anos 1980, quando uma classe média jovem passou a disputar o poder com os militares".

Sobre o drama político que ainda se desenrola nos países árabes, o historiador diz que vale a pena recordar o Irã de 1979, cenário da primeira revolução que teve o Islã como elemento político. Esse aspecto da revolução iraniana teve reflexos na Primavera Árabe.

"Quem fez concessões ao Islã sem ser religioso acabou marginalizado. Dentre eles os reformistas, liberais e comunistas", diz, destacando outros grupos que se somaram aos religiosos para derrubar a monarquia iraniana alinhada ao Ocidente.

"A ideologia das massas não é a ideologia dos que começaram as manifestações", pontua. Embora diga que a Primavera Árabe lhe tenha causado alegria, Hobsbawm diz que o elemento religioso no movimento é "desnecessário e não necessariamente bem-vindo".

http://noticias.uol.com.br/bbc/2011/12/31/revolucoes-de-2011-me-lembram-1848-diz-hobsbawm.jhtm

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

RESENHA COMENTADA - O MITO MODERNO DA NATUREZA INTOCADA



RESENHA COMENTADA - O MITO MODERNO DA NATUREZA INTOCADA

Josenildo Santos de Souza[1][1]


O livro de Antônio Carlos Diegues encontra-se dividido em 10 capítulos, sendo que os capítulos tem subcapítulos. É no capítulo 4 que o autor explica o conceito e a noção de natureza intocada e mito moderno.

A noção de mito naturalista, da natureza intocada, do mundo selvagem diz respeito a uma representação simbólica pela qual existiriam áreas naturais intocadas e intocáveis pelo homem, apresentando componentes num estado ´puro´ até anterior ao aparecimento do homem. Esse mito supõe a incompatibilidade entre as ações de quaisquer grupos humanos e a conservação da natureza. O homem seria, desse modo, um destruidor do mundo natural e, portanto, deveria ser mantido separado das áreas naturais que necessitam de uma ´proteção total´. (Diegues, 1994, p. 45).

O mito moderno segundo o autor seria

um conjunto de representações existentes entre setores importantes do Conservacionismo ambiental de nosso tempo, portador de uma concepção hipocêntrica das relações homem-natureza, pela qual o mundo natural tem direito idênticos ao ser humano. Como corolário dessa concepção, o homem não teria o direito de dominar a natureza. Esse mito tem raízes profundas nas grandes religiões, sobretudo a cristã, e esta associada a ideia de paraíso perdido. (idem, 1994, p. 45).

Antônio Diegues (1996) diz que a criação de parques nacionais tem sua origem nos Estados Unidos, sendo o primeiro de Yelloswstone em meados do século XIX.  Keith Thomas (1983) citado por Diegues diz que essa ideia surgiu na Europa e neste momento a literatura europeia era rica em aventuras envolvendo “paraísos perdidos”, pedaços da natureza intocada (selvagem, pristina), sem a presença do homem.
As áreas naturais conforme Carlos Diegues nasceu protegidas e nos Estados Unidos influenciaram o conceito de parques nacionais. As “wildeness” (vida natural/selvagem) eram concebidas sem a presença humana e feitas para fins de recreação e amenizar as pressões ecológicas dos que viviam nas regiões urbanas. Rodam apud Diegues (1994 p. 29) diz que ”[...] a criação dos parques obedeceu a uma visão antropocêntrica na medida em que beneficiava as populações urbanas e valorizava, principalmente, as motivações estéticas, religiosas e culturais dos humanos[...].”.
Diegues mostra que a concepção de “mundo natural” diverge entre as populações urbanas e indígenas e das zonas rurais recorrendo a Gomez-Ponpa e Kauss que fazem uma crítica a noção de “mundo natural”, pois apontam que o conceito de “wilderness” (mundo natural/selvagem/ como terra intocada ou domesticada) é, fundamentalmente, uma percepção urbana, uma visão de pessoas que vivem longe do ambiente natural de que dependem como fonte de matéria-prima.Os habitantes da zona rural têm percepções diferentes das áreas que os urbanos designam com e baseiam seu uso da terra em visões alternativas.

Os grupos indígenas dos trópicos por exemplo, não consideram a floresta tropical como selvagem: é sua casa. Muitos agricultores, entram numa relação pessoal com o meio ambiente. [...] O termo conservação pode não fazer parte de seu vocabulário, mas é parte de seu modo de vida e de suas percepções das relações homem com a natureza. (Gomez-Ponpa e Kauss apud Diegues, 1994, p. 30).

Diegues (1994) identifica nos Estados Unidos o debate entre duas correntes teórico-práticas: O Conservacionismo que pregava o uso racional dos recursos por meio do manejo e que todo recurso deveria ser usado para o beneficio da maioria, e preservação dos desperdícios, defendidos por Gifford Pinchot. apud Diegues (1994, p. 24) que deveria “agia dentro de um contexto de transformação da natureza em mercadoria”.
Pinchot apud Diegues (1994, p. 24) “acreditava que a conservação deveria se basear em três princípios: o uso dos recursos naturais pela geração presente, a preservação de desperdício e o desenvolvimento dos recursos naturais para muitos cidadãos”.O preservacionismo que pregava a “reverência” da natureza no sentido da apreciação estética e espiritual da vida selvagem (wilderness) pretendia proteger a natureza contra o desenvolvimento industrial e urbana. O preservacionismo nos Estados Unidos foi influenciado por Henry David Thoreau e por John Muir que analisou os impactos negativos da civilização sobre a natureza Muir defendia o respeito ao meio ambiente.
No segundo capítulo Diegues (1994) apresenta criticas ao modelo de parques nacionais: 1 Rodman apud Diegues (1994) afirma que o modelo possui uma visão antropocêntrica e privilegiava as (populações urbana, apelo estético/religioso, seletivo). Baird Callicot apud Diegues (1994) crítica a concepção de wilderness porque marca a separação entre sociedade e natureza. Diegues mostra que esse modelo foi exportado para o resto do mundo, criando um hiato entre povos e parques.
Diegues (1994) destaca que esse modelo de Conservacionismo foi nocivo e devastador para os países do Terceiro Mundo, sobretudo para as “populações tradicionais” de extrativistas, pescadores, índios, cuja relação com a natureza é diferente daquela analisada por Muir e os primeiros “ideólogos” dos parques nacionais americanos.
No terceiro capítulo Diegues (1994) fala sobre as atuais escolas do pensamento ecológico que tratam do “mundo natural selvagem”, destacando que:
1.        A ecologia profunda (deep ecology) cunhada por Anne Naes, considera que a natureza deve ser preservada por ela própria, recebendo influências do espiritualismo cristão. A natureza teria os mesmos direitos que o homem. Sua crítica é feita aos ecologistas sociais que acham difícil o ser humano negar seu antropocentrismo e além do mais suas proposições que as sociedades humanas deveriam inspirar-se na natureza, demonstram que o transcurso da história ”toda justificação da ordem social pelas leis da natureza serviu ao totalitarismo” (Diegues, 1994, p. 38).
2.        Ecologia Social, vê os seres humanos  como sociais organizados em grupos diferentes. São considerados anarquistas, utópicos. Propõe uma sociedade democrática, descentralizada e baseada na sociedade comunal de produção.
3.        Eco-socialismo é baseado numa crítica ao culturalismo e ao naturalismo. Nasceu das discussões influenciadas pelas forças produtivas da natureza. Esse novo naturalismo baseia-se me três ideias principais: a) o homem produz o meio que o cerca e é ao mesmo tempo seu produto; c) considera a natureza parte de nossa história; d) a coletividade e não o individuo se relaciona com a natureza. A sociedade é ao mesmo tempo parte e criação da natureza.
No quarto capítulo Diegues (1994) aborda os mitos bio-antropomórficos (Morin, 1991), os neo-mitos e o mundo natural que comportam dois princípios: 1 Inteligibilidade e semântico e um subprincípio o da unidualidade que sofre influencia dos ciclos da natureza.
Segundo Morin apud Diegues (1994) os mitos permanecem presentes nas sociedades modernas através da experiência afetiva pela poesia e pela arte. Morin apud Diegues (1994, p. 49) ao dizer que

a historia contemporânea, dissolvendo as antigas mitologias, cria outras e regenera, de forma propriamente moderna o pensamento simbólico/mitológico/mágico. Para esse autor, há persistência do pensamento mitológico em regiões rurais distantes e atrasadas, mas também há uma ressurgência de mitos no mundo urbano. De um lado, ainda que a antiga analogia antropo-sócio-antropológico esteja morta no plano da crença nas sociedades modernas, seus paradigmas se encontram vivos na experiência  afetiva, na poesia e na arte.

Diz Morin apud Diegues (1994) que os mitos não pertencem apenas e exclusivamente aos povos indígenas, mas existem também entre populações de caçadores, extrativistas, pescadores, agricultores itinerantes que vivem afastados da economia de mercado.  Para Morin apud Diegues (1994, p. 47) os mitos são

narrativas que descrevem ‘a origem do mundo,  origem do homem, o seu estatuto e a sua sorte na natureza, as suas relações com os deuses e os espíritos. Mas os mitos não falam só da cosmogenese, não falam  so da passagem da natureza a cultura, mas também de tudo o que concerne a identidade, o passado, o futuro, o possível, o impossível, e de tudo o que suscita a interrogação, a curiosidade, a necessidade, a aspiração. Transformam a história de uma comunidade, cidade, povo, tornam-na lendária, e mais geralmente, tendem a desdobrar tudo que acontece no nosso mundo real e no nosso mundo imaginário para os ligar e os projetar juntos no mundo mitológico.

A concepção de áreas naturais protegidas está permeada de mitos seja pela necessidade de “salvação da biodiversidade”, seja pelo conteúdo de mundo selvagem. Atualmente os mitos e neo-mitos estão presentes nas atividades das sociedades primitivas, tradicionais, extrativistas e ribeirinhos, pois o mito universal é o calendário, o céu, as estrelas, tecem proibições e interdições para o exercício das atividades. O turismo ecológico é visto como um neomito.
No quito capítulo Diegues (1994) fala que nas relações do homem com a natureza aparece uma parte ideal, onde são exercidas três funções do conhecimento que é representar, organizar e legitimar as relações do ser humano com a natureza. As relações entre homens e deles com a natureza segundo Godelier apud Diegues (1994, p. 56) são as representações de dois tipos: a) processo de trabalho (taxonomia); b) as que legitimam o lugar e a posição do individuo na realidade.
Essa forma também seria expressa por meio da linguagem, uma vez que é por meio dela que se transmitem o conhecimento e aprendizado. Assim, segundo Godelier a linguagem poderia ser incluída nas forças produtivas. Há segundo o autor um conflito entre o espaço ecológico criado para uso das populações urbanas e o espaço dos comunitários, o território das populações tradicionais que possuem sua representação no espaço que lhes fornece meio de subsistências, meios de produção das relações sociais e materiais. Segundo Mckay apud Diegues (1994, p. 58) há três tipos diferentes de propriedades: 

Propriedade privada individual; 2. Propriedade pública (áreas naturais protegidas); c) e propriedades comuns, ou formas comuns ou comunitárias de apropriação de espaços ou recursos naturais, sobretudo os renováveis. Esse processo é visto como um sacrifício necessário das populações residentes nesses espaços em benéfico da população urbana. Isso representaria a sobreposição de espaços e há também o choque entre as populações tradicionais e as sociedades modernas.

No sexto capítulo Diegues (1994) aborda alguns conceitos de cultura. Relaciona-os a antropologia e sua relação com a natureza. Aborda a ecologia cultural que estuda os processos adaptativos por meio dos quais as sociedades são afetadas por ajustes básicos, e por meio deles utiliza o meio ambiente. Seu principal conceito é o “cultural core” onde estão as atividades de subsistência, a tecnologia e a organização social. Outra abordagem é a antropologia ecológica que é baseada na teoria de sistemas, seus principais conceitos seriam a homeostase, autorregularão e auto-alimentação.   
A Etnociência para descobrir a lógica subjacente do conhecimento do mundo natural, parte da linguística. Lança mão de três áreas básicas: classificação, nomenclatura ou folk e a da identificação. Já a Antropologia neomarxista (ou econômica) que incorpora conceitos como os modos de produção e renovação social, além de incorporar o domínio dos  mitos e representações, faz ligações entre sociedades pré-capitalistas e capitalistas.
Para Redfild apud Diegues (1994) há uma diferença entre culturas tradicionais, marcando uma separação entre os indígenas e os camponeses. A diretiva de 1991 conceitua povos nativos usando as seguintes características: 1. Ligação intensa com os territórios tradicionais; 2. Auto-identificação e identificação pelos outros como grupos culturais distintos; 3. Linguagem própria; 4. Presença de instituições sociais e politicas próprias e tradicionais; e 5. Sistemas de produção voltada para a subsistência.
Dasmann apud Diegues (1994) classifica dois tipos de sociedades com relação a natureza: 1. Os povos do ecossistema (simbiose) e 2. Os povos biosfera interligadas a uma economia global. Diegues aponta que na relação entre as populações tradicionais e a natureza é a noção de “território” é predominante. O autor (1994, p. 75) diz que “o território depende não somente do tipo de meio-físico explorado, mas também das relações sociais existentes”. Esses espaços são espaços das representações mitológicas, oriundas do imaginário. Há sociedades que consideram certos espaços na floresta como naturais ou sagrados.
As práticas de preservar os espaços sagrados segundo Newman, é uma prática “ancestral de proibir o acesso a certas florestas ao homem, é uma forma de criar zonas de preservação onde a flora e a fauna poderiam se reproduzir com tranquilidade” em uma perspectiva e dimensão sustentável dos povos tradicionais.   Diegues (1994) aponta que as culturas tradicionais são definidas e estão relacionadas com o tipo de organização social, econômica e politica com pouca ou nenhuma acumulação de capital, não usando força de trabalho assalariado. 
O autor caracteriza as culturas e sociedades tradicionais pela: 1. Dependência, simbiose com a natureza (modo de vida); 2. Conhecimento aprofundado da natureza e dos seus ciclos (manejo) e transferência de conhecimento; 3. Noção de território; 4. Tempo de ocupação pelas gerações; 5. Atividades de subsistência e sua relação com o mercado; 6. Reduzida acumulação de capital; 7. Unidade familiar, relação de parentesco ou compadrio; 8. Simbioses (mitos e rituais) relacionadas as atividades econômicas. 9. Tecnologia reduzida de impacto ao meio ambiente; 10. Fraco poder político; 11. Auto-identificação ou identificação pelos outros.
Ao falar das mudanças sociais, Diegues associa estas a articulação com o capitalismo e Queiroz apud Diegues (1994) afirma que as primeiras mudanças ocorrem no consumo. “Nesse contexto, as áreas naturais protegidas poderão contribuir para a manutenção de exemplos dinâmicos de relação harmoniosas entre homem e natureza para as sociedades urbanas industriais” (Diegues, p. 86). A conservação das populações representa poder, mostrando que a diversidade cultural caminha passo a passo com a diversidade ecológica.
No sétimo capítulo, Diegues (1994) mostra a história sobre o surgimento da noção de parques nacionais. As bases teóricas foram definidas na segunda metade do séc. XIX. A América Latina teve seu primeiro parque em 1984 no México. No Brasil, só em 1973, com objetivos iguais aos de Yellowstone, bem depois de México, Argentina e Chile. Um marco importante foi a definição de parques nacionais no Terceiro Congresso Mundial de Parques Nacionais, em 1962, em Bali (Indonésia).
A preocupação com as populações tradicionais para Diegues (1994, p. 91), tem seu marco em 1985, na revista Cultural Suvivar (volume 9, n. 1, fevereiro 1985) que teve sua publicação dedicada em defesa das populações tradicionais com o titulo “Parks and People”. Jason W. Clay em diversos artigos critica a expulsão das populações tradicionais das áreas protegidas, mostrando que as áreas podem conter modos de vidas tradicionais, afirmando que estas poderiam se beneficiar com a venda de produtos ou da renda gerada pelo turismo ecológico.
Em 1986, a conferência da UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza), realizada em Ottawa (Canada), destaca a forma de relação entre populações tradicionais e as unidades de conservação. A conferência recomendou que

[...] os povos tradicionais não devem ter seu modo de vida alterado se decidirem permanecer na área do parque ou que não sejam reassentados fora dela sem seu consentimento. [...] foi a primeira vez que foi tratada de forma explicita a situação dos povos tradicionais que vivem em parques. (Diegues, 1994, p. 93).

Em 1986, a Conferência da UICN, no Manual de Manejo das áreas protegidas nos trópicos, propõe a criação de Zonas Tampão para proteger as áreas e permitir algumas atividades compatíveis com a conservação. Em 1986, em Bariloche a UICN enfatizou papel das áreas protegidas para o desenvolvimento sustentável, mas reconhece a questão das populações tradicionais no processo de desenvolvimento.
No oitavo capítulo, Diegues (1994) destaca os trabalhos pioneiros e valiosos de Caio Prado sobre a alteração dos ciclos ecológicos e os de Sergio Buarque de Holanda sobre a relação entre paraíso perdido e a descoberta do Brasil. No período colonial há que se destacarem as atividades de José Bonifácio no início do século XIX que combatia o corte das florestas e sugeriu a criação de um setor administrativo especialmente voltado para a conservação da floresta.
Em 1934, conforme Diegues (1994), por iniciativa de Alberto Jose de Sampaio e Leôncio Correia, foi realizada a I Conferencia para a Proteção da Natureza promovida pela “Sociedade dos Amigos das Árvores”, ano em que surgiram os primeiros Códigos de Caca e Pesca, de Minas, Águas e Florestal. Em 1896, São Paulo cria o Serviço Florestal. A Constituição de 1937, endossou a Constituição de 1934 reafirmando a responsabilidade do Estado na proteção e cuidados dessas áreas. O I Parque Nacional foi criado em 1937, em Itatiaia, para a pesquisa e lazer. Foi nesse período que formularam-se critica as iniciativas governamentais do Brasil (Ibama), recusando-a de uma visão derrotista, ignorância das especificidades do 3 Mundo.
Em 1992, foi apresentado ao Congresso, o projeto de Lei n. 2.892, a proposta do Sistema Nacional de Unidade de Conservação - SNUS, apresenta uma visão conservadora, onde a natureza é vista como um sistema sem conservação de como esse sistema vive. Não há uma referência ao problema dos “parks ano peoples”. Não há uma referência à proteção da diversidade cultural: Há um estabelecimento de hierarquia entre as áreas a serem protegidas pelas mais completas e importantes visão autoritária, onde a proposta das novas UCs não deve passar à participação da sociedade.
Diegues enfatiza a importância das populações locais para assegurar a diversidade biológica. Diz que é inevitável repensar o conceito de “florestas naturais”. Além do que se tornam necessários resgatar os sistemas tradicionais de manejo praticado pelas populações tradicionais, técnicas essas que tem contribuído para a preservação da diversidade biológica.
 Citando POSEY (1987); GOME-POMPA & KAUS (1992) e BROWN, K. &. BRWN, G. (1992) Diegues defende e aponta a necessidade de se incorporarem às populações tradicionais no manejo das áreas. Atesta o grande cabedal de conhecimento das populações indígenas e tradicionais na conservação da biodiversidade da floresta tropical brasileira na perspectiva do desenvolvimento sustentável.
O autor destaca que as populações urbanas tem muito que aprender com as populações tradicionais que vivem em harmonia com a natureza. Chama atenção para as várias formas tradicionais de manejo de águas estuarinas e costeiras por pescadores artesanais.  Diz que as diversas técnicas de manejos tanto para a floresta como para os ambientes costeiros contribuíram e contribuem para a manutenção da diversidade biológica, tanto das espécies quanto dos ecossistemas. São práticas que revelam um grande conhecimento acumulado pelas populações tradicionais.
Em suas conclusões Diegues (1994) destaca que nem todos os moradores são conservacionistas natos, mas entre eles há populações tradicionais que armazenaram um vasto cabedal de conhecimento empírico do funcionamento do mundo natural em que vivem. Destaca que há uma grande necessidade de se conhecer melhor as relações entre a manutenção da diversidade biológica e a conservação da diversidade cultural com a participação das populações nativas, extrativistas e ribeirinhas..

Referência:
DIEGUES, Antônio Carlos. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: NUPAUB – Universidade de São Paulo, 1994.


[1][1] Professor de Filosofia e Filosofia da Educação da Universidade Federal do Amazonas – Instituto de Natureza e Cultura – Campus Alto Solimões. Ministrou ainda as disciplinas Novas Tecnologias da Informação/Comunicação e Saberes Tradicionais.  Dados para citação: SOUZA, J.S. e-mail: josenildosantosdesouza@ufam.edu.br.  Data da publicação Dezembro de 2011. http//www.filosofianoaltosolimoes.blogspot.com.